Quando os Pais pagam pelos erros dos Filhos

Na última sexta-feira, por conta da greve geral, muitas escolas em SP não funcionaram e, no caso da escola das crianças, teve atendimento, mas com equipe reduzida. Para evitar transtornos desnecessários mantive os dois em casa, e aí haja criatividade, energia e paciência para entreter duas crianças o dia todo.

Estamos, aqui em casa, vivendo um momento que é o seguinte. De um lado o Yuri, no auge dos seus dois anos, começando soltar a língua e naquela fase fofa, fofa, fofa de criança que está aprendendo a falar e fazendo mil gracinhas lindas. A todo momento nos pegamos com um : “aiiinnn, ouuunnn, que fofo, olha que figurinha”… são sorrisinhos, olhares apaixonados, viva, palmas, etc etc etc.

Aí do outro lado tem a Nina, prestes a completar 5 anos, uma delícia de menina também, meiga, inteligente, falante, mas que tem um tipo de graça diferente da do irmão. Enquanto o Luli chama atenção mais pelas suas fofuras e descobertas, a Nina chama atenção pelas suas pérolas e conversas cheias de lógica e argumento. É claro que também nos encantamos com ela, mas a forma de nos expressarmos a esses encantos não é tão entusiasmada como a forma que demonstramos para o Yuri, confesso.

E também é claro que, de alguma forma, do jeito dela, a Nina percebe isso tudo, e reage a isso com alguns comportamentos bem chatos de lidar, claramente desencadeados por ciúmes do irmão.

Quando é possível relevamos, damos mais atenção, valorizamos mais empolgados suas conquistas e suas gracinhas também. Mas tem momentos que as coisas começam a passar do limite, e aí o desgaste começa. Ok ela se sentir enciumada e querer atenção, mas precisamos ajudá-la e ensiná-la formas aceitáveis de demonstrar e falar dos seus sentimentos. E como essa tarefa é difícil!

Uma das formas que ela tem de chamar atenção é “cutucando” o irmão. Apertando, abraçando, beijando, pegando no colo, entrando na frente dele impedindo que ele passe por onde quer, puxando ele de um canto pro outro. Tem hora que Yuri aceita e dá risada, mas, na maioria das vezes, ele não gosta, não quer, se irrita, reclama, chora… quem tem mais de um filho em casa sabe exatamente do que estou falando, certamente sabe.

E na última sexta-feira era isso que estava acontecendo. Como estávamos o dia todo em casa, procurei relevar e propus que assistíssemos Moana depois que eu terminasse de organizar algumas coisas e respondesse alguns e-mails importantes.

Veja bem, eu havia passado a manhã toda dedicada a eles e precisava fazer algumas coisas durante o período da tarde, período este que eles estariam na escola. Ou seja, a Nina não estava carente de atenção, mas estava sem limite de atenção, se é que assim podemos dizer. Sabe aquele negócio de você dar a mão e a pessoa querer o braço?

A Nina entende perfeitamente as coisas que são ditas, argumenta, e tem total liberdade para fazer isso, mas algumas coisas, aqui em casa, são inadmissíveis. Uma delas é desafiar a minha autoridade como mãe e desobedecer, caçoando de mim, quando estou chamando atenção. E não é só porque sou a mãe dela, mas porque é um comportamento inadequado com qualquer pessoa, que prejudica muita gente em relações pessoais e até profissionais.

E foi exatamente isso que ela fez.

Na empolgação para assistir o filme ela não me deixava concluir as tarefas que eu precisava e, para chamar a atenção, mexia nas minhas coisas, cutucava o irmão, corria e se jogava no chão ou no sofá de forma perigosa, tentava desligar meu computador… tudo isso regado de muita risada e gritos que eu pedia insistentemente para parar.

Chamei a atenção algumas vezes pedindo com educação e gentileza para que ela parasse. Não adiantou. Aí apliquei a causa x consequência, que levo muito a sério por aqui, e disse que se precisasse chamar a atenção dela mais uma vez, não teria mais filme e nem pipoca, e que além disso ela ficaria no cantinho do pensamento para pensar no que estava fazendo.

O caos estava instaurado. O Yuri chorava de cansaço e de tanto que tinha sido provocado, eu estava com a paciência no limite, e ela testando minha autoridade incansavelmente.

Falei e cumpri. E quando dei o aviso que tinha bastado, ela riu da minha cara. Olhando nos meus olhos, ela riu da minha cara. Levantei o tom de voz e ela foi para o cantinho. Ela chorou, respirou, se acalmou e ouvi de longe ela cuspindo enquanto estava no castigo. Respirei fundo, fui até ela e perguntei se realmente ela havia feito aquilo. Ela confirmou.

Pedi que se acalmasse e que quando tivesse refletido e quisesse pedir desculpas que me procurasse.

Ela ficou por uns 15 minutos lá. Por vontade própria. Quando veio pedir desculpas e falando como uma poesia recitada, listou tudo que tinha feito de errado e que não faria mais. Ela sabia e tinha reconhecido, de alguma forma, que tinha passado do limite.

Ok, desculpas aceitas, porém, eu paguei o pato! Eu estava louca para assistir o filme, eu estava louca para me enfiar debaixo do edredom com ela e comer pipoca enquanto assistia o filme! E eu paguei pelo erro dela. Eu não assisti filme, eu não comi pipoca :-(

Depois eu fiquei refletindo se eu deveria ter assistido o filme sozinha e comido a pipoca sozinha, enquanto deixava ela no quarto fazendo outra coisa. Mas achei que seria muita tortura psicológica e que o cantinho tinha feito ela refletir realmente.

Até que depois de um tempinho uma nova tentativa de malcriação começou e a consequência seria mais “pesada”: não ir ao aniversário do amiguinho no dia seguinte, que ela estava super ansiosa há dias para ir!

O efeito foi imediato e duradouro! Deixei bem claro que ela duvidou e riu de mim quando eu disse que ela não assistiria o filme e não comeria a pipoca, e ela viu que a promessa foi cumprida.

Só que se as tentativas de desafio continuassem, eu teria que cumprir com minha palavra. Não foi o que aconteceu, ela se comportou super bem até o aniversário, mas e se a consequência fosse aplicada? Lá iria eu de novo, me justificar para a mãe do amiguinho, que já estava contando com nossa presença, de que não iríamos.

Esses exemplos são até que banais, mas ficou essa interrogação e essa reflexão pra mim. Hoje a Nina é uma criança, acho que é natural acabarmos “pagando” junto pelos erros cometidos pelos filhos pequenos. Mas vejo tantos pais se sacrificando e pagando por erros de seus filhos adolescentes, adultos! Difícil achar o limite, difícil saber até onde chegar, difícil não ser julgada.

Acho que muitos comportamentos inadequados de adultos hoje, são reflexo de muita mão passada na cabeça no passado. Mas como julgar e entender isso tudo se o que queremos é sempre fazer o melhor que podemos? E mais, como não sentir aquela ponta de culpa quando nossos filhos “dão mancadas”?

Fica a reflexão, porque eu não sei a que conclusão chegar com isso tudo…rs.

Beijos – Mari

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