Sobre as injustiças que cometemos com os filhos mais velhos

Eu sou a filha mais velha, tenho só uma irmã, e provavelmente fui injustiçada pelos meus pais em relação à ela em diversas situações. Da mesma forma que ela também, certamente, foi injustiçada inúmeras vezes em relação a mim. Mas o papo hoje é sobre as injustiças que cometemos com os filhos mais velhos. Qualquer dia falo sobre os mais novos…rs.

Vou exemplificar com uma situação que aconteceu hoje mesmo, há algumas horas atrás. A Nina e o Luli estavam se divertindo e brincando com esse tapetão da foto.

Se jogavam em cima do tapete, davam risada, pulavam, o Yuri dava umas resmungadas quando a brincadeira não ficava bem do jeito que ele queria. Até que a Nina começou a cobrir o Luli com o tapete, a “enrolar” o Luli no tapete, brincar de “cadê? achou!”. Aquela brincadeira que estava escrito nas estrelas que ia dar ruim sabe?

E deu!

Em uma dessas a Nina jogou o tapete cobrindo o Luli, puxou rápido e com força e ele se estatelou no chão, bateu a cabeça e foi aquele chororô (não foi nada de grave, só o susto do tombo mesmo).

Na mesma hora a nossa primeira reação (nem lembro quem chamou atenção dela, se fui eu ou meu marido), foi reprimir: “Nina! O que é isso? Por que você fez isso com seu irmão? Isso não se faz? Você machucou ele Nina! Você não é de fazer isso? O que tá acontecendo com você?”

E enquanto isso o Luli era acudido e acalmado.

Ela baixou a cabeça, ficou claramente chateada e eu perguntava de forma insistente: Nina, você fez isso sem querer? Ela respondeu que não. Então você fez isso de propósito? Ela respondeu que não. Respondeu que não tinha feito por nada! E insistíamos em dizer que não existia por nada. Que ou era de propósito ou era sem querer.

Pedimos para que ela pedisse desculpas ao Luli. Ela foi contrariada e pediu aquela desculpa meio torta.

Passou, eu fui tomar banho e ela aparece no banheiro cabisbaixa. Ficou me rondando, olhava pra mim, não falava nada, até que falou baixinho: desculpa mamãe! E saiu rápido do banheiro.

Eu a chamei, disse que não estava ouvindo o que ela falava e ela voltou. Pediu desculpas de novo e eu perguntei o por que. “Porque eu fiz coisa errada”. E então o diálogo começou. Vou transcrever com o máximo de detalhes que lembrar, porque acho que isso é um momento que eu preciso ter registrado para relembrar no futuro.

O que você fez de errado?

Eu fiz o Luli se machucar.

Tudo bem filha, você está arrependida?

O que é arrependida?

Arrependida é quando nós fazemos alguma coisa e depois pensamos: “poxa vida, eu não devia ter feito isso, não quero fazer de novo.”

Não mamãe, eu não estou arrependida. Eu não pensei isso (fiquei meio chocada com essa resposta, a primeira coisa que me feio à cabeça foi que ela poderia ter feito de maldade mesmo, de propósito)

Então você queria machucar seu irmão?

Não, eu não queria.

Nina, então vamos conversar para tentar entender o que aconteceu. Se você não queria machucar seu irmão, foi sem querer.

Mamãe, não foi sem querer, não foi de propósito, não foi nada! Você não consegue descobrir o que aconteceu, você não tá falando a coisa certa. Você falou que a gente ia entender, mas você não consegue!

E ela saiu super frustrada do banheiro. Eu fiquei ali, sem entender direito o que estava acontecendo, mas com a certeza de que ela queria dizer alguma coisa que não conseguia, quando ela voltou.

Mamãe, quando eu estava brincando de “cadê? achou!” com o Luli e eu joguei o tapete em cima dele, eu puxei bem forte para achar ele porque eu queria que ele caísse no chão.

Então você quer pedir desculpas por isso? Foi de propósito então Nina?

Não mamãe, eu não quero pedir desculpas, não foi de propósito. Eu já falei que foi por nada! Eu queria que ele caísse no chão e se divertisse e desse risada. Só que ele caiu e bateu a cabeça e chorou!

Nesse momento meu coração despedaçou! A verdade é que sim, era sem querer, mas a cabecinha dela não conseguia ligar um fato ao outro. Para ela, a questão estava em puxar o tapete e derrubar o Luli no chão, e sim, ela queria fazer isso! Mas ela não conseguiu conectar as coisas para entender que fazer o irmão chorar e se machucar era em querer. E aí fiquei imaginando o nó que a cabeça dela deu tentando compreender tudo isso.

Nina, então o que aconteceu foi algo não planejado, uma coisa que você não pensou que pudesse acontecer. Você queria que seu irmão caísse e desse risada, isso foi o planejado. Só que ele caiu e chorou, então não foi o planejado. Foi isso filha?

É mamãe, é mamãe! Foi isso. Foi isso que você falou! Você descobriu agora!!!! 

Ela ficou muito contente, muito satisfeita em ter conseguido falar. E meu coração ficou com um misto de alegria e de culpa (quem nunca?), por termos deixado a situação ficar muito mais pesada do que deveria.

Antes dela ir me pedir desculpas, ela ainda pisou no pé do irmão, dessa vez de propósito, jogou alguma coisa na cabeça do pai, e aí foi para o cantinho pensar… foi depois disso que ela veio pedir desculpas pra mim. Pensando na situação como um todo, interpreto que essas demonstrações de raiva, de nervoso, provavelmente decorreram de uma falta de compreensão da nossa parte, dos sentimentos dela. Dela não entender o porque estava sendo repreendida, porque estávamos recriminando aquele comportamento, quando para ela, não existia nada de errado. Ou seja, cometemos uma injustiça, ao reprimi-la sem entender o que tinha acontecido de verdade. Consideramos só a situação isolada e não o contexto geral.

Na hora do jantar eu perguntei se ela tinha ficado feliz em termos descoberto que tudo que tinha acontecido era algo não planejado. Papai disse que tinha entendido e que quando alguma coisa não é planejada, é uma coisa que foi sem querer. Então, ela podia dizer sim que o que causou ao irmão foi sem querer.

E aí ela nos surpreendeu de novo com sua doçura e maturidade, para uma menina que não tem nem cinco anos de idade.

Mas mesmo quando a gente faz alguma coisa sem querer, a gente tem que pedir desculpa né? Sabe o que é mamãe, eu estava com dificuldade de falar o que tinha acontecido. Aí, quando eu perdi a dificuldade, eu consegui falar.

Tendemos a achar que o filho mais velho, quando tem uma idade que já compreende melhor as coisas, como a Nina, sempre saberá o que está fazendo, sempre tem a obrigação de cuidar do irmão mais novo, de ensinar…

Só que, independente da idade, esse irmão mais velho tem sentimentos e nem sempre sabe lidar com eles. Eles não precisam sempre ceder, sempre entender, sempre cooperar.

Por aqui tentamos ser justos com os dois, mas é frequente as situações, principalmente nos momentos de cansaço, de pressa, de mil afazeres para tocar e um tanto de demandas dos filhos para atender, em que a Nina é quem, normalmente, precisa colaborar mais.

“Nina, por favor, fala baixo que seu irmão está dormindo! Pára de gritar!” – quando ela está cheia de energia para brincar e pular.

“Nina, pára de apertar seu irmão, deixa ele quieto, respeita ele Nina!” – quando ela quer somente demonstrar carinho.

“Nina, dá uma bolachinha pra ele, depois eu pego outra para você” – mesmo quando aquela bolachinha é a última do potinho, tipo aquele último pedaço do doce que deixamos no prato de sobremesa, que mesmo tendo mais uma travessa à disposição, não tem o mesmo sabor daquele último pedaço do prato.

E essas são só algumas situações corriqueiras que tenho tentado me policiar. Não acho que ela sempre faz as coisas na inocência, acho sim que em diversos momentos é de propósito. Mas o que a história de hoje me fez parar para pensar é que, quando acontece de propósito, tem algo que a levou a isso. E em alguns casos, é algo que podemos evitar.

Não estou me martirizando de culpa. Não é o caso. Não acho que foi nada de super grave que aconteceu. Mas acho legal eu parar para pensar, quando for possível (rs), de antes de soltar um: “POXA NINA!”, se não posso acudir o Luli, em momentos como o de hoje, em que ele precisava de conforto, me segurar para não reprimir o comportamento dela logo de cara, e só depois ter uma conversa como a que tivemos enquanto eu tomava banho.

Não consigo concluir a forma certa ou errada de agir, e ainda vou errar muito, e também acertar. Mas hoje eu entendi, foi sem querer.

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7 comentários

  1. Daiane comentou:

    Mari, que texto incrível e repleto de sentimentos!! Como te entendo e como muitas vezes fui injusta com o mais velho também que sempre tem que entender que a irmã é bebê… Muito obrigada e parabéns!!! Super beijo

  2. Fabianama comentou:

    Mari aqui em casa eh tudo mto parecido… que bom ler tudo isso, me sinto melhor e menoa culpada 😬

  3. Rose Poli comentou:

    nOSSA MARIIIIIII…..QUE BELO POST ….. ME CAIU CERTINHO.. PRA REFLETIR MAIS.. COMIGO MESMA.. POIS FAÇO UMA COBRANÇA DO MAIS VELHO E AS VEZES SINTO QUE SE CHATEIA.. TENHO DOIS FILHOS UM DE 09 ANOS E UM DE 03 ANOS.. sEMPRE PEÇO AO MAIS VELHO PRA DEIXAR O IRMAO VER O DESENHO PREFERIDO PRA EU TENTAR FAZER UMA JANTA… OU DEIXA SEU IRMAO QUIETO.. QUANDO NAO ESTA A FIM DE BRINCA… MAS AGORA DEPOIS DE LER ISSO ABRIU MEUS OLHOS DAS INJUSTIÇAS QUE COMETEMOS NA CORREIA DO DIA A DIA… ADOREI BJOS

  4. Jheni comentou:

    Eu tenho uma de 5 e uma de 1 ano e 10 meses..percebi que depois da mais nova nacer chamo mais a tencao dela (mais velha)..faz um tempo q nao brigo com ela por causa das coisas q as duas aprontam juntas..pq vi q qndo estao brincando elas nao tem nocao nenhuma q tal brincadeira pode dar errado elas so querem se divertir juntas..sao criancas nao tem nocao de certos perigos..hj dexo elas brincarem juntas bastante.mas qndo vejo q a brincadeira nao é sadia, separo as 2 cd uma para um canto dae elas ficam quietinhas .mas nao brigo mais como antes.pq eu entendi q ela NAOÓOOOO faz por mal..
    E mariana e acredito q a nina tbm nao faz por mal ela e mt nova p entender certas coisas.acredito q so quer diversao.como ela disse ..queria q ele caisse pra ele rir.ela nao tinha nocao q com um tombo ele poderia se machucar.porq alii NAQUELA hora era td brincadeira.nao adianta perguntar ficar batendo na mesma tecla pq eles nao sabem explicardireito nao acham as palavras certas .mts mts veses nao sabem o significado de certas palavras complexas..é o mundo da imaginacao genteeee…..dexa brincar dexa pular dexa liga o karaoke pra eles cantarem.kkkkk .e tao bom ser crianca.e eles sentem q algo mudou depois do mais novo.eles percebem.e pensam o pq ela me trata assim e antes nao ..pensem bem antes de puxar as orelhas dos mais velhos.