Coluna da Neima: Sobre a minha experiência com o parto normal

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Crédito: Google Imagens

Muito antes de engravidar do Gustavo eu já queria um parto normal. Explico: nunca gostei de ambiente hospitalar, e o fato de ter acompanhado minha mãe no hospital durante as suas internações (falei um pouco sobre isso no meu primeiro post aqui no blog), bem como todas as lembranças decorrentes disso, só fizeram aumentar meu desejo de passar o menor tempo possível num hospital, ainda que fosse na ala da maternidade. Em regra, o período de internação de quem teve PN é menor que o de quem fez uma cesárea, e pra mim, qualquer dia a menos me faria feliz. Eu tb não teria a minha mãe pra me ajudar com o bebê em casa, e é sabido que a recuperação de uma cesárea pode ser incômoda. Além disso, morria de medo da anestesia e dos seus efeitos colaterais. Por isso, quando descobri a gravidez, minha primeira preocupação foi a de ter uma conversa aberta com a minha GO.

Ela já me acompanhava há muitos anos pelo convênio, e logo na primeira consulta eu perguntei se ela fazia PN. Ela me respondeu prontamente que sim, que muitas de suas pacientes tinham tido PN e que ela achava que toda mulher deveria ao menos tentar passar por essa experiência. Confesso que por ser marinheira de primeira viagem, tive um certo receio de cair numa cesárea mal indicada, porém pesou muito na balança a confiança que eu já tinha estabelecido com ela (pelos anos em que ela me atendia) e o fato de ela desenvolver um trabalho importante no Hospital das Clínicas, um renomado hospital universitário público aqui de SP – como sabido, no sistema público de saúde a preferência é pelo PN. Uma coisa que pode parecer bobagem, mas que na hora me tranquilizou, foi que assim que eu apareci com o positivo, ela pegou o celular pra calcular a DPP pra ver se estaria aqui em SP. Daí ela me explicou que se estivesse viajando, já me indicaria outro profissional que topasse o PN.

Os meses foram passando e durante todo o pré-natal nós conversamos sobre o que seria necessário pra que eu conseguisse meu objetivo – sim, eu queria MUITO um PN. Há algum tempo o parto humanizado (independentemente de ser uma cesárea ou um PN) estava adquirindo força e já havia muita informação disponível pra quem quisesse fugir de uma cesárea só “por indicação”, por isso eu li muito sobre o assunto e tinha argumentos de sobra pra perceber se estava nas mãos de uma profissional “cesarista” ou não. Eu sabia que a minha médica não era 100% adepta do atendimento humanizado (lembro que numa das consultas ela me disse que parto em casa era demais pra ela – e pra mim tb), porém ela se mostrou aberta ao diálogo, o que pra mim foi muito importante. Não cheguei a fazer um plano de parto nem nada, mas esclarecemos vários pontos antes do “evento” (trabalho de parto, analgesia, episiotomia, posições, uso da sala de parto normal no hospital – tenho pavor de centro cirúrgico, jejum pré-parto, luz na sala de parto, amamentação, entre outros). A cada consulta eu me sentia mais segura de que sim, ela tinha embarcado nesse meu desejo comigo.

Enfim, sem eu saber, tinha chegado o grande dia (ou a grande “madrugada”, rs?). Lembro que fui me deitar aliviada porque o dia já estava acabando e nada de diferente havia acontecido (Gustavo nasceu na manhã do dia 02-04, um dia depois do 1º de abril – eu estava morrendo de medo dele nascer no dia da mentira, rs.). Só que pouco depois, perto da uma da manhã do dia 02, minha bolsa rompeu. Mas não foi como nas cenas de filme, porque foi um rompimento bem discreto (vazou pouco líquido amniótico, mas deu pra perceber que o negócio estava começando). Pedi pro marido ligar pra médica e ela me disse para acompanhar as contrações (que eu nem sentia, já que estava dormindo até então) e quando estivessem ritmadas e fortes, ligar de novo pra ela. Óbvio que não conseguimos voltar a dormir, então eu fui tomar um banho e ver se estava tudo pronto (a louca, porque como toda mãe de primeira, estava tudo no jeito há mais de um mês, rs). Foi só eu me acalmar e tentar dormir de novo que as primeiras contrações começaram. Quando elas adquiriram uma constância, ligamos de novo pra médica e ela disse para esperar um pouco mais, porque ainda não estavam de 10 em 10 minutos (uma coisa que eu já tinha falado com ela é que não queria ficar longas horas no hospital em Trabalho de Parto – TP, tudo o que desse eu queria passar em casa, desde que com segurança). Foi engraçado que pouco tempo depois dessa ligação ela nos ligou de novo e disse: “Não quer ir pro hospital só por precaução? Gestantes orientais costumam ter um TP rápido, ainda que seja o primeiro parto”. Como eu já estava meio incomodada com as dores, topei e fomos.

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Minutos antes de sair de casa: conferindo a documentação na bolsa

Chegamos no São Luiz muito rápido, afinal era de madrugada. Marido ficou resolvendo a burocracia do convênio (adendo: nessa altura minha médica tinha se desligado dele, então nós arcamos com os honorários da equipe médica – a GO, auxiliar, anestesista. Só a internação foi por conta do convênio.) enquanto eu passei pela triagem. Fiquei tão aliviada que não tinha ninguém naquela sala de espera, rs. A primeira vez que fui à maternidade fiquei assustada com o tanto de gente que tinha por lá! Aí a enfermeira perguntou quem era minha médica e disse: vai ser normal ou cesárea? Ufa, mais um ponto pra médica! Ela fazia mesmo PN.

Sei que depois de ser examinada a enfermeira me disse que eu estava com 4 cm de dilatação (e já não tinha mais o tampão). Subi pra outra sala (ainda sem o marido, que tinha esquecido as malas no carro – homens, hmpf!) e fiquei lá sozinha curtindo o meu PN #sqn. Lembro que as dores estavam ficando mais fortes e a enfermeira disse: “Tente aguentar o máximo que conseguir. Quando vc achar que está perto de não aguentar mais, me avisa, porque às vezes o anestesista pode demorar pra chegar.”. Eu tive vontade de morrer nessa hora, como eu ia saber quando ia chegar esse momento de não aguentar mais se aquele era meu primeiro parto??!!!

Fato é que acabei identificando esse exato momento e a moça me disse que ia me levar pra sala de parto (e, consequentemente, pra banheira, e que isso aliviaria as dores enquanto os médicos não chegavam…). Gente, quando entrei naquela hidro, parecia que um milagre estava acontecendo, ahahahah. A água quente me relaxou super, eu fiquei tão calma e mais confiante ainda de que as coisas estavam caminhando bem. Lembro que pensei, bom, se já estou aqui daqui a pouco o Gu nasce e as dores nem foram tão fortes assim. Hoje vejo como eu fui ingênua, ;)

O relaxamento da água aos poucos foi sumindo e dando lugar a MUITAS dores. Lembro que eu olhava no relógio e o tempo parecia não passar. Lembro também que eu flutuava na água, durante as contrações eu não conseguia enxergar mais, não via o marido nem ninguém. A toda hora eu perguntava pra enfermeira se o anestesista tinha chegado e ela, com a maior calma do mundo, respondia, ainda não, mas ele já vem… Depois fui descobrir que fiquei pouco mais de duas horas na banheira (e eu tinha a impressão de que tinha criado raízes lá dentro). Só sei que quando a moça disse: “Ele chegou!” e eu vi o cara lá, de roupa azul e com a touquinha na cabeça, fiquei muito aliviada, parecia criança vendo o Papai Noel, tamanho o meu desespero.

Eu já tinha conversado com a minha médica que queria tentar um parto sem analgesia, ou então, adiá-la ao máximo, mas naquela hora, não pensei em nada. Não estava suportando mais e achei que meu limite já tinha chegado. Hoje, com mais calma, vejo que talvez eu pudesse ter aguentado mais, talvez tenha faltado incentivo da equipe pra eu tentar mais um pouco (porque tb vim a saber depois que estava próxima do expulsivo). Porém, naquele momento, eu senti que precisava de anestesia, e assim foi.

Só que pra conseguir tomar a bendita da anestesia eu tinha que sair da banheira e aí, meus amores, a coisa foi feia. Eu estava muito cansada e não conseguia imaginar como é que eu conseguiria sair de lá (apesar de o TP não ter sido muito longo para um primeiro parto, ele evoluiu rápido depois que entrei na água – lembro que a última vez que olhei no relógio eram quase 7 da manhã e eu ainda estava bem lúcida. Ou seja, deve ter sido pouco depois de eu entrar na banheira – o Gu nasceu às 10h24). Num último esforço e auxiliada pelas enfermeiras, eu consegui subir aqueles malditos degrauzinhos, mas aí o resultado disso foi que eu vomitei (o que é bem comum durante o TP) – na frente do marido – zero glamour…

Com a analgesia, eu finalmente consegui relaxar. Relaxei tanto que tive até sono, rs. Acho que mais um pouco e eu conseguiria dormir. Fico pensando que provavelmente o anestesista me deu uma dose forte, porque eu quase não sentia dores – mas em nenhum momento eu deixei de sentir minhas pernas. Tb conseguia sentir as contrações e fazer a minha parte no expulsivo – auxiliada pela minha médica. Enfim, depois da anestesia, foi só alegria!

Eu não tenho noção de quanto tempo durou essa parte final do parto, lembro apenas que eu fazia força em alguns momentos e nos outros eu conseguia descansar. Só sei que chegou uma hora em que fiz 3 forças maiores, e depois delas o Gu nasceu!!! Foi um momento lindo, inesquecível, indescritível. Ele veio direto para o meu colo, parecia me cheirar e já chorou rápido. Lembro também que ele abriu os olhinhos e aí eu e o marido quase morremos de amor. Nossa, como eu chorei. Em seguida a minha médica me ajudou a colocá-lo para mamar e ele abriu um bocão, parece que nasceu sabendo fazer isso. A pega estava direitinha e ele mamou bem.

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Oi, mamãe, cheguei!

Depois dos últimos procedimentos de “finalização” (expulsão da placenta, pontos da episio – sim, eu fiz e me arrependo. A médica ficou com receio de uma laceração grande e preferiu fazer. Porém, nessa segunda gravidez eu já disse que não quero que seja feita, pois esses pontos me incomodaram um bocado depois.), Gustavo foi pesado e medido pelo neonatologista do hospital, tudo na sala de parto. Desconfio que ele tenha sido aspirado também, mas ele não chorou. Acho que qualquer RN choraria né, porque é algo bem chato. Então tenho a esperança de que talvez isso não tenha acontecido de fato. Apesar de o marido ter ficado junto todo momento, ele não se lembra pra me contar :s. *Providência para o segundo parto: conversar com o neonatologista e pedir que o segundinho não seja aspirado nem receba colírio (não é necessário quando a mãe não tem gonorreia).

Acabada essa parte, toda a equipe se despediu e saiu da sala e pudemos ficar lá só nós 3, curtindo e lembrando de tudo. Foi muito importante essa privacidade, essa ausência de pressa em desocupar a sala, ninguém entrou sem nossa permissão. Às vezes aparecia uma enfermeira pra nos perguntar se precisávamos de alguma coisa, água, uma bolachinha. E só. Ficamos lá por quase 3 horas e vou guardar pra sempre essas primeiras horas da nossa família.

Foi só depois que o Gu nasceu que o marido ligou para o meu pai e os pais dele, além dos nossos irmãos. Preferi que fosse assim pra evitar qualquer expectativa, já que estava todo mundo ansioso pelo “evento”. Todos me perguntavam pra quando estava marcado o parto e eu dizia que “seria quando o Gu quisesse” e todos me olhavam com cara de “x”, rs… Então não quis avisar ninguém de antemão e foi ótimo.

Nós não fizemos alojamento conjunto, então quando eu desci pro quarto o Gu foi levado pro berçário. Marido acompanhou o banho e me mandou fotos e eu tive vontade de sair correndo do quarto pra ver tudo ao vivo, rs. Eu estava com medo que ele ficasse no berçário central por muito tempo, mas ele não demorou muito pra voltar e daí sim a família pôde conhecê-lo melhor.

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Logo depois do primeiro banho, ainda no berçário central

Graças a Deus minha recuperação foi muito boa, pude tomar banho sozinha pouco depois do parto, consegui comer (estava mor-ren-do de fome), caminhar e sentar normalmente, sem restrição de movimentos. Não tive dor nas primeiras horas, só no dia seguinte por conta do incômodo da episio. Nada que um analgésico comum não resolvesse. No fim, tivemos que ficar no hospital por 3 dias porque o Gu teve icterícia (coisa muito comum entre asiáticos), e por isso não pudemos sair mais cedo. Mas eu já estava “de alta” informal da minha médica.

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Banho de luz. Dá uma aflição, né?

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Chegando no quarto e o primeiro colinho. Favor não reparar na minha cara de maluca

Ufa! Quem aguentou ler tudo isso merece um prêmio!!!! Quis escrever com detalhes porque acho importante relatar essa experiência pra quem está na dúvida se vale a pena um PN. Eu recomendo com fé, mas quero deixar claro que não condeno ninguém por ter tido uma experiência diferente. Ninguém é mais ou menos mãe por causa do tipo de parto, somos todas mães, e só quem já ficou grávida sabe o que é sobreviver às 40 semanas. Muita gente dando pitaco, palpite, conselho. Cada uma sabe onde o seu calo aperta e independentemente dessa escolha, o que deve imperar é o respeito. O que eu acho uma pena são as mães que têm o real desejo de ter um PN e são “conduzidas” por médicos a uma cesárea. Nem tudo o que dizem por aí justifica uma cirurgia: cordão enrolado (Gu nasceu com 2 voltas), bebê grande demais, cesárea anterior, bebê pélvico etc. Cada caso é um caso, não dá para generalizar. E por isso, a gestante tem que se informar e ter o direito de escolher. É ELA a protagonista do nascimento do seu filho, e não a conveniência do médico. Por isso, você tem que confiar no profissional que te assiste. Eu não sou ativista de nada, meu parto não foi totalmente humanizado, mas eu tive a necessidade e o desejo de viver essa experiência. Cada uma sabe o que é melhor pra si e ninguém tem nada a ver com isso!

Essa foi a minha experiência e eu pretendo repeti-la, ainda que com algumas pequenas mudanças. E vocês, o que acham disso tudo?

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Prontinho pra ir pra casa!!

Beijos!

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3 comentários

  1. Sara comentou:

    Linda sua experiência e que bom que compartilhou com bastante detalhes!! Sempre quis ter parto normal, mas não tive… fiz o que pude, mas na última ultrassom não tinha mais liquido na bolsa, minha medica disse que tinha que ser cesárea, não tive tempo de pesquisar e pensar… até hoje não sei bem como acaba o líquido da bolsa…
    mas com sua experiência tive mais vontade ainda de ter PN no próximo!
    Obrigada Neima

  2. Gabriela comentou:

    Adorei seu post! Eu quis muito ter parto normal, mas acredito ter sido induzida a não tê-lo com a alegação do médico de que eu tinha um mioma que atrapalharia minhas contrações. a recuperação da minha cesárea foi difícil e até hoje sonho em como nossa história poderia ter começado de forma diferente. mas o que importa é que hoje tenho minha filhinha saudável e feliz.

  3. Tatiane Alves comentou:

    Parabéns querida pela linda história de persistência e garra!!!
    Conta p/ gente qual o nome da sua médica e qual foi a unidade do hospital são luiz que vc teve sua experiência, afinal tá tão difícil acreditar nesses g.os que dizem fazer parto normal, que qdo temos um relato desses em que foi tudo respeitado, queremos saber os nomes.
    super beijo